Big Brother Brasil 9
Tava lembrando três anos atrás quando entrei na faculdade. Um dia um professor (que eu respeito e amo profundamente) resolveu usar, como um exemplo de ignorãncia, as pessoas que assistem ao Big Brother. Discutíamos sobre o que era arte e como poderíamos reconhecê-la e defini-la como tal. Não me lembro exatamente de qual foi minha argumentação na época, mas fiz algumas perguntas simples, com base em tudo que ele havia dito antes do tipo:
- Mas o artista não é aquele que captura uma representação visual de uma determinada sociedade num determinado tempo histórico?
- Aham.
- E ele precisa necessariamente reconhecer que está fazendo isso?
- Não.
- Os grandes artistas, que conseguem manter seu valor histórico, não foram, em maioria, aqueles que usaram a mídia descoberta/disponível mais recentemente?
- Sim.
- E você não acabou de dizer que só saberíamos o que é a verdadeira arte do nosso tempo/espaço daqui a uns mil anos?
- É.
- Então desculpaí, mas boto minhas fichas que daqui a mil anos as pessoas estarão estudando o John de Mol como grande artista do nosso tempo.
Nessa afirmativa, meu professor desistiu de discutir comigo. Não deu corda, pura e simplesmente. Ainda assim eu fui a única da sala a fechar o semestre dele com total. Hoje, três anos, estudando arte, depois, eu tenho ainda mais argumentos pra defender que o Big Brother da tv tem um puta valor artístico, de acordo com as teorias das artes visuais. Claro que o Big Brother brasileiro, por exemplo, se encaixaria no caso de reprodução de uma obra, sem carregar, por isso, o caráter aurático da obra de arte. Talvez se encaixasse no caso da inspiração digerida e devolvida com as particularidades locais e temporais. Não estranharia se fosse o caso e muito menos se trata de um fenômeno incomum na história da arte. Só pra ter uma idéia, o "primeiro movimento artístico" brasileiro, o modernismo, é conhecido como antropofágico exatamente por isso. Porque ele é uma espécie de digestão e devolução do que acontecia na Europa na mesma época.
O meu ponto é que quando as pessoas desconsideram o valor artístico ou mesmo intelectual de alguma coisa, sem que pra isso tenha incorporado ao seu julgamento ao menos um, mesmo que mínimo, argumento que comprove sua opinião eu acho essas pessoas meio burrinhas. Ok, talvez não burrinhas, mas desprovidas de qualquer senso crítico. Como pra mim o senso crítico é essencial pra desenvolver qualquer comentário sobre qualquer coisa no âmbito do valor intelectual/artístico, desconsidero.
Como alguém pode tomar como uma verdade que uma coisa seja "burra" ou mesmo "emburrecedora" se o que de fato o faz enxergar as coisas dessa maneira é a falta, em primeiro lugar, de conhecimento teórico sobre o assunto e, em segundo, um olhar crítico analítico?
Na boa, sem essas duas coisas eu posso até olhar pra um Miró e afirmar, sem sombra de dúvidas, que aquilo é uma merda duma garatuja e "meu subrim far mió". Taí, pessoas que saem berrando por aí, como se fosse uma verdade, não só absoluta como também confirmável, que Big Brother é um programa "burro" ou "para pessoas burras", de uma maneira que dê a entender que essa afirmação transcende sua opinião pessoal, soam pra mim como aquele retardado que olha a Cabeça de Touro do Picasso e comenta "Ah, mas isso até eu poderia fazer". E olha que nem cacaradoPicasso eu vou.

Tudo isso que estou dizendo agora não vale apenas pra UM programa de tv. Nem vale só pra programas de tv. Vale pra qualquer um desses "sensos comuns" que as pessoas saem repetindo por aí sem ao menos se questionar sobre o que estão dizendo. Vale especialmente para os "sensos comuns" que são tratados como algum tipo de confirmação de inteligência ou conhecimento cultural avançado. Quer parecer inteligentão? Vai estudar. Fica a dica.
(Aliás, se alguém seguir a dica e resolver estudar artes, miligaê que sou louca pra discutir o assunto, metendo o Walter Benjamin na briga, com alguém que discorde de mim. Beijos)


