Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Big Brother Brasil 9

Tava lembrando três anos atrás quando entrei na faculdade. Um dia um professor (que eu respeito e amo profundamente) resolveu usar, como um exemplo de ignorãncia, as pessoas que assistem ao Big Brother. Discutíamos sobre o que era arte e como poderíamos reconhecê-la e defini-la como tal. Não me lembro exatamente de qual foi minha argumentação na época, mas fiz algumas perguntas simples, com base em tudo que ele havia dito antes do tipo:

- Mas o artista não é aquele que captura uma representação visual de uma determinada sociedade num determinado tempo histórico?
- Aham.
- E ele precisa necessariamente reconhecer que está fazendo isso?
- Não.
- Os grandes artistas, que conseguem manter seu valor histórico, não foram, em maioria, aqueles que usaram a mídia descoberta/disponível mais recentemente?
- Sim.
- E você não acabou de dizer que só saberíamos o que é a verdadeira arte do nosso tempo/espaço daqui a uns mil anos?
- É.
- Então desculpaí, mas boto minhas fichas que daqui a mil anos as pessoas estarão estudando o John de Mol como grande artista do nosso tempo.

Nessa afirmativa, meu professor desistiu de discutir comigo. Não deu corda, pura e simplesmente. Ainda assim eu fui a única da sala a fechar o semestre dele com total. Hoje, três anos, estudando arte, depois, eu tenho ainda mais argumentos pra defender que o Big Brother da tv tem um puta valor artístico, de acordo com as teorias das artes visuais. Claro que o Big Brother brasileiro, por exemplo, se encaixaria no caso de reprodução de uma obra, sem carregar, por isso, o caráter aurático da obra de arte. Talvez se encaixasse no caso da inspiração digerida e devolvida com as particularidades locais e temporais. Não estranharia se fosse o caso e muito menos se trata de um fenômeno incomum na história da arte. Só pra ter uma idéia, o "primeiro movimento artístico" brasileiro, o modernismo, é conhecido como antropofágico exatamente por isso. Porque ele é uma espécie de digestão e devolução do que acontecia na Europa na mesma época.

O meu ponto é que quando as pessoas desconsideram o valor artístico ou mesmo intelectual de alguma coisa, sem que pra isso tenha incorporado ao seu julgamento ao menos um, mesmo que mínimo, argumento que comprove sua opinião eu acho essas pessoas meio burrinhas. Ok, talvez não burrinhas, mas desprovidas de qualquer senso crítico. Como pra mim o senso crítico é essencial pra desenvolver qualquer comentário sobre qualquer coisa no âmbito do valor intelectual/artístico, desconsidero.

Como alguém pode tomar como uma verdade que uma coisa seja "burra" ou mesmo "emburrecedora" se o que de fato o faz enxergar as coisas dessa maneira é a falta, em primeiro lugar, de conhecimento teórico sobre o assunto e, em segundo, um olhar crítico analítico?

Na boa, sem essas duas coisas eu posso até olhar pra um Miró e afirmar, sem sombra de dúvidas, que aquilo é uma merda duma garatuja e "meu subrim far mió". Taí, pessoas que saem berrando por aí, como se fosse uma verdade, não só absoluta como também confirmável, que Big Brother é um programa "burro" ou "para pessoas burras", de uma maneira que dê a entender que essa afirmação transcende sua opinião pessoal, soam pra mim como aquele retardado que olha a Cabeça de Touro do Picasso e comenta "Ah, mas isso até eu poderia fazer". E olha que nem cacaradoPicasso eu vou.



Tudo isso que estou dizendo agora não vale apenas pra UM programa de tv. Nem vale só pra programas de tv. Vale pra qualquer um desses "sensos comuns" que as pessoas saem repetindo por aí sem ao menos se questionar sobre o que estão dizendo. Vale especialmente para os "sensos comuns" que são tratados como algum tipo de confirmação de inteligência ou conhecimento cultural avançado. Quer parecer inteligentão? Vai estudar. Fica a dica.

(Aliás, se alguém seguir a dica e resolver estudar artes, miligaê que sou louca pra discutir o assunto, metendo o Walter Benjamin na briga, com alguém que discorde de mim. Beijos)

Sábado, Fevereiro 07, 2009

Falta de foco.

Tava reparando que, talvez, de tanto desejar viver uma biografia da qual me orgulhar, minha vida acaba querendo me agradar e fechando tudo muito certinho como se eu seguisse um roteiro. Às vezes isso me incomoda horrores e me dá a impressão de que eu poderia simplesmente me despir da minha personagem como uma atriz depois do fim da peça. Quando isso acontece eu tento e obviamente dá errado.

E falando nas nuances da personagem:
Eu sempre escolho o atalho. A minha regra é a do menor esforço e maior vantagem. Muitas vezes me perguntam, me pergunto, se não valeria a pena apostar um pouco mais alto em pelo prazer de conseguir mais vantagens a troco de um esforço maior que o mínimo. Eu poderia até me tornar numa dessas viciadas em atingir metas. Fazer uma verdadeira e intensa produção de suco de esforço em doses cavalares. Tenho um amigo que é assim, um conquistador de metas. Ele traça metas, pena um monte atrás delas e depois chega pra mim com um sorriso de orelha a orelha contando da sua conquista.
- Legal hein....
- *insira aqui um discurso sobre o quanto a meta alcançada é incrível*
- Cê jura?
- *insira novamente algo empolgado e satisfeito*
- Massa... Parabéns.

Sempre acho o preço caro. Minha lente nunca foca no prazer do que foi conquistado, só nos sacrifícios do processo. Eu vivo assim. Meus processos precisam ser bons porque a alegria da vitória é efêmera demais pra mim. E dá ressaca. Com ressaca me domina a melancolia.

E falando em melancolia:
Taí uma coisa que eu conheço e entendo como ninguém. Tristezas. Dores. Sofrimento. Não que eu viva disso e só faça me lamentar das coisas. Pelo contrário, as pessoas que convivem superficialmente comigo frequentemente me perguntam se eu alguma vez fico triste. Até se eu choro já me perguntaram. O que é uma grande ironia porque as pessoas que convivem mais profundamente comigo têm como lema me mandar parar de mimimi. Minha resposta padrão para "Tudo bom?" é um sorriso enorme e "Tudo ótimo!", mas eu sei o quanto a dor dos outros dói, ou no mínimo consigo fazer uma idéia bem próxima da realidade. Eu gosto de tentar ajudar, nem que isso signifique só ouvir. Eu gosto de tentar ajudar mesmo que eu nem ajude. Eu gosto de tentar ajudar mesmo que no final eu acabe atrapalhando. Tá vendo? Não importa o resultado, o meu lance é o processo. Escutando o que se passa na cabeça dos outros eu acabo tirando umas dicas pra tentar matar meus próprios e insistentes demônios.

E falando nos meus demônios:
Nunca descobri as origens dos meus. Especialmente do meu medo. Não consigo sentir medo de nada que eu consiga imaginar. Baratas, cobras, fantasmas, altura, morte. Eu sinto medo de pessoas, mas não é o tempo todo. Só sei que surge delas aquela sensação fóbica. Queria muito saber do que eu sinto tanto medo e do que eu me protejo tanto. Talvez eu devesse simplesmente aceitar que estou em segurança e não teria que pensar muito mais em nada.

E falando em pensar:
Não, não consegui chegar a conclusão nenhuma com a minha desconectada de dois dias. Só conclui que me retirar do palco não vai resolver problema nenhum. Rapidinho acharia outro palco pra representar a mesma personagem numa nova trama muito similar e dar contínuidade à que eu vivo hoje. Não tenho uma solução a longo prazo. Mas nesse exato momento eu posso perfeitamente gastar as próximas horas tomando um banho gelado com meu sabonete novo e cheiroso, arrumar meu quarto, enfim, passar meu tempo. Ir a farmácia comprar fraldas! Fraldas!!! Taí um jeito bom de passar o tempo: comemorando uma nova vida.

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Uns dias atrás aí eu resolvi tirar a maior parte dos rastros da minha vida que eu mantinha na internet. Scraps e comunidades no Orkut que eu vinha mantendo desde que entrei lá, quando brasileiro ainda era minoria. Fotolog que eu criei quando comprei minha primeira câmera digital. Tirei os comentários antigos aqui do blog e todo o arquivo anterior a esse ano. Não tirei nada do twitter pq descobri q ele não arquiva as coisas anteriores a tipo 6 meses atrás então deixei estar como estava. Sei lá.

Na verdade eu tomei a decisão de largar isso tudo registrado só na minha memória e não ao alcance de "a quem interessasse" porque eu decidi tirar um lance muito antigo da minha vida, um lance que me era muito importante. Eu honestamente não imaginava que essa decisão me faria questionar profundamente quem eu de fato sou, quero, gosto.

Além desse momento rolou uma outra coisa muito sinistra. Uma pessoa igualmente importante pra mim, num rompante de "Deus sabe o que" decidiu me soltar uma frase misteriosa e sumir. Sabe o que é interessante? É que apesar da minha amizade de anos com essa pessoa eu nem o telefone dela tenho pra ligar e perguntar o que houve. O que eu fiz de errado? Por que eu mereci um momento passive-agressive assim, do nada? Se o que tínhamos era uma das bases da minha crença de que "virtual" não se trata necessariamente de "imaginário" ou "inexistente", comecei a ter minhas dúvidas.

E aí um pedido inocente de "mantenha isso um segredo" foi como o primeiro dominó de uma fileira que de repente, assim, agora a pouco, começou a cair dentro da minha cabeça. Por que me dar ao trabalho de ser tão honesta e aberta com esses caracteres que se dizem pessoas? Tenho inúmeros motivos pra ser, que vão de Mariana que conheci no irc, Kenji que conheci no Orkut, Lizzie que conheci no twitter. Isso por que me limitei a dar um único exemplo de cada, poderia citar muito mais nomes de gente linda que conheci e a priori foram caracteres numa tela. Ao mesmo tempo muita coisa ruim e duvidosa que aconteceu na minha vida veio na mesma forma. Como por exemplo aquela noite que eu dormi na rua, numa Curitiba gelada ou do dia em que eu tive que me preocupar em bloquear os caras que tinham me estuprado na noite anterior pra que eles não me mandassem mensagens por IMs.

Eu gosto muito de me fazer de inocente. Meu primeiro namorado sempre dizia que parecia meu sonho ser bonita e burra. Devia ser mesmo porque eu ignorei muita coisa, eu fiz vista grossa pra muita gente, eu engoli muitas meias verdades e em vários momentos fiz de égua. Burra mesmo, eu nunca consegui ser. Sempre fui tapeada e enganada sabendo muito bem aonde eu estava pisando. Dei a faca e o queijo na mão das pessoas e só achei uma pena elas de fato os usarem como eu imaginava que usariam. Tive pena delas terem perdido a oportunidade de me surpreender, terem perdido a chance de se mostrarem melhor do que a bosta que eu via que elas eram.

Perdi o controle disso em algum momento e comecei a ter dificuldade de, ao notar esses traços de mediocridade, privar essas pessoas de me alcançarem. Só as que cometiam coisas muito graves foram afastadas, me viciei em dar segundas chances, terceiras, quartas, quintas... Talvez por medo de voltar a ser a tirana escrota que eu cresci pra ser. Talvez por medo de não conseguir mais sonhar, acreditar, fantasiar que o mundo pode ser de alguma maneira um lugar legal povoado por gente boa.

Agora me cai a ficha de que eu devo estar fazendo tudo errado, porque se eu de fato acreditasse nisso não me rodearia de pessoas ruins nas quais eu me esforço pra enxergar algo que preste. Enfim, eu preciso pensar. Preciso me retirar dessa balbúrdia pra que, de fora, possa olhar pra ela e separar o que me importa nisso tudo. O que tem valor e que eu quero guardar. Me livrar dessa solidariedade patológica e tomar coragem pra mandar muita gente à merda. Ou não, ou concluir que fiquei louca e inventei tudo isso. Só sei que preciso ir à superfície pra respirar.




Volto quando der.