Começou em 1999. Bouby Bouchardé, o poodle da minha irmã, havia desaparecido. Eu não sabia o que era viver sem um cão em casa, desde muito pequena tivemos cachorro e depois de ter passado pela morte de dois eu não queria exatamente arrumar mais um e passar por aquilo tudo de novo. Nossa pastor alemão viveu muitos anos mas uma que veio logo depois dela, uma dogue alemão que eu enchi o saco pra ganhar, viveu apenas um ano nos dando muito problema com sua saúde frágil e veterinários que não sabiam nem por onde começar a diagnosticar a bichinha.
Eu, que tinha passado uma infância criando os mais variados animais, todo tipo de roedores, pássaros e até dois marrecos de pequim que eu tinha cismado em comprar em Colatina, cheguei aos 18 anos apenas com um pequeno cachorro fresco e meio chato que decidiu uma bela noite desaparecer. Acabei descobrindo com isso que possuía uma incapacidade brutal de ficar sozinha.
Quando chegava em casa da aula, um daqueles terceiroanointegrado que tinha aula o dia inteiro e me descobria sozinha era um tal de chorar compulsivamente e morrer de medo de tudo que acabou deixando meu namoradinho da época preocupado, eram sintomas de alguma coisa que provavelmente eu já tinha há algum tempo, mas só se tornaram visíveis com essa situação criada pelo desaparecimento do cachorro. Não aguentando mais minhas ligações desesperadas o dito cujo decidiu, ia me dar um cachorro novo, com a esperança de que aquelas coisas que eu sentia quando ficava sozinha fossem embora.
Começamos a pesquisar raças, eu queria um cachorro grande, um akita talvez, quem sabe até um pastor alemão... Até que um dia ele me telefonou à noite e disse que talvez tivesse encontrado um cachorro pra mim. Não era um cachorro grande, nem de raça, na verdade ele era até meio esquisitinho, e me perguntou se eu gostaria de ficar com ele. O irmão dele tinha ganhado de um conhecido. A parte da história que eu sei é que ele era cria de uma poodle premiada com um fox terrier (muito provavelmente um amor interracial proibido) e que todos seus irmãozinhos tinham conseguido um lar, menos ele. A mãe do meu ex disse que não ficaria com aquele bicho esquisito em casa nem fudendo. Sabendo do meu desejo de ter um cão ele lembrou logo de mim e me propôs ficar com ele. Eu não só desejava, eu precisava de um cãozinho, e pelo visto aquele tal esquisitinho precisava de mim. Dramas de novela mexicana à parte um dia, depois da aula, meu ex o buscou em casa para que ele pudesse ir pro seu novo lar.
Meus colegas que o conheceram faziam comentários espertinhos, do tipo, "esse bicho não nasceu, foi espirrado" e outras maldades do gênero. Eu honestamente nunca consegui enxergar isso. Desde a primeira vez que olhei pra ele achei a coisa mais linda desse mundo, coisa que não foi recíproca. Meu novo cãozinho, meio despelado, totalmente descabelado e com a pontinha do rabo quebrada morria de medo de gente, eu incluida. O rabinho quebrado e o medo absurdo de qualquer figura humana só me levam a crer que a vida dele antes de mim tinha sido dura, tomei como missão tomar conta pra que fosse maravilhosa dali em diante e isso me salvou.
Estranho e antissocial, Shinji foi o nome mais perfeito que dois fãs de anime poderiam escolher pra ele. Ikari Shinji, sendo que Ikari é sobrenome.
Minha irmã e minha mãe tinham odiado a decisão que eu tomei de adotá-lo. Minha mãe achava cruel que eu arrumasse um cão que tinha alguma semelhança com o desaparecido da minha irmã e minha irmã odiava olhar pra ele e lembrar do Bouby Bouchardé. O cão estranho com um moicano amarelo ainda pagou o preço por lembrar, muito vagamente, um poodle de pedigree, vê se eu guento? O único que ainda simpatizou com ele foi meu pai e mesmo assim achava desagradável os olhares dele, os achava humanos demais, e me perguntava se aquilo era um cachorro ou um ET. Não levou muito tempo, mas levou muito colo e muito chamego pra que o Shinji se sentisse à vontade com pessoas, ficamos inseparáveis. Manter o Shinji bem e feliz era meu objetivo maior na vida.
Então, uma hora, os sintomas que emergiram na ausência de pessoas, que me levaram a precisar dele, começaram a pipocar de outras maneiras. Todos os meus distúrbios emocionais resolveram se rebelar e em muito pouco tempo eu larguei o namorado, larguei a faculdade, larguei tudo... Eu me afundei num período que carinhosamente chamo de "trevas". Quando eu não estava absolutamente bêbada e vivendo na madrugada eu ficava trancada em casa chorando no escuro. Ou eu afogava os monstros que me consumiam em alcool ou eles simplesmente me consumiam. Eu chorava literalmente 24 horas por dia, 7 dias por semana e só tinha alguma paz quando bebia e/ou usava drogas até ficar inconsciente. Aí começaram os tratamentos. Passeei por psiquiatras em toda a cidade, tomei uma tonelada de remédios, fiz qualquer coisa que dissessem que me faria melhorar. Até serotonina na veia em várias, e caríssimas, sessões eu tomei. Eu tinha muito mais do que certeza que minha vida não servia pra nada e que seria muito mais útil pra mim, pra toda minha família e pra todos meus amigos, acabar com aquilo de uma vez. Eu estava causando sofrimento demais pra mim e pra qualquer um que chegasse perto. Só tinha um problema.
O Shinji era grudado demais em mim. Na sua pequenineza eu acho que ele imagina que me defende. Não deixa ninguém chegar perto de mim enquanto eu durmo e brincadeiras mais confusas, tipo cosquinhas ou algo assim, o fazem avançar sem pensar duas vezes. Ele sempre escapa de qualquer sistema de segurança só pra ficar perto de mim. Se não consegue, berra até ensurdecer qualquer um. Hoje em dia, quando as pessoas me visitam acham estranho e muitas vezes eu até escuto, calada, críticas, do tipo "seu cachorro é muito neurótico". "Num é?" eu respondo com sarcasmo lembrando que se não fosse ele eu nem estaria ali pra escutar gente com a língua grande demais.
As trevas infernizaram a minha vida e a de qualquer um que me conhecia. Realmente, na época, o melhor a fazer era acabar com isso tudo. Só não era, nem nunca foi, melhor pra ele. Ele era o único que não se tocava do monstro que eu tinha virado e que ainda precisava de mim mais do que eu precisava morrer. Não só precisava como demonstrava. Por um tempo eu até tentei fazê-lo aproximar de outras pessoas, mas não adiantava, o lance dele é comigo. De certa forma parece até que ele cobra o que eu prometi quando ele veio pra cá. Que ia ficar tudo bem, que eu ia cuidar dele pra sempre. E toda vez que eu cogitava seriamente me matar isso me assombrava e eu me sentia quebrando nosso acordo. Nunca tive coragem de tomar uma atitude nesse sentido por ele. Passei por umas coisas, tomei remédios demais algumas vezes, mas nada que eu desejasse conscientemente que terminasse com a minha vida. Uma vez tomei todos os remédios prescritos pra 3 meses e isso se deu, honestamente, porque eu precisava conseguir parar de chorar. Qualquer um sabe que se quiser se matar a internet taí pra ensinar métodos rápidos, eficazes e muitas vezes indolores. Enfim...
Na verdade nem era essa história que eu queria contar. Eu queria falar sobre algo que tinha a ver com a beleza, yada yada, que o amor não enxerga essas coisas e que mesmo super estranho eu ainda acho o Shinji o cão mais lindo do mundo....
Mas bora terminar agora. Eu melhorei nos últimos anos, aos poucos, meus monstrengos horrendos e minhas trevas estão sendo domados e hoje tão muito mais praqueles monstrinhos que mordiam o biscoito num mundo super colorido. Mas sem ele eu nunca chegaria nisso. Soa meio ridículo pra quem nunca passou por essas coisas, as pessoas perguntam "Mas e a sua família? Você não pensava neles?!!" mas a verdade é que em situações assim parece bem mais eficaz, pra devolver a felicidade pras pessoas que te amam, cair fora. E não raras vezes escutei familiares de gente passando por isso "foi/seria melhor assim". Porque somos humanos. Somos racionais. Cá entre nós, não sabemos amar incondicionalmente.
Ele sabe.
Então, especialmente pra esse povo bonito que frequenta a minha casa, segura o linguão pra falar do meu cachorro esquisito ok? Ele fez coisas que você não conseguiria nem se esforçando demais.
ps. Ele é lindo.
pps. 10 anos atrás ele era um vira-lata, um srd. Mas hoje é conhecido como
Designer Dog, ou híbrido, e por isso compreenda que ele é bem mais cool que seu filhote de incessantes cruzamentos co-sanguineos, mais cool e mais saudável. Traduzindo: tô na moda e meu cachorro é geneticamente melhor que o seu. (e mais caro também, btw)
********Update********Atendendo a pedidos, fotos da coisa marlinda. Recentes, claro.

Ele notando que eu comecei a tirar fotos.

"Ah nem, será que se eu ignorar ela desaparece?"

"Não quero! Foto agora nããããooo!"

Dá pra parar de fazer drama e me deixar tirar pelo menos UMA boa?

Isso! Mas agora segura a pose preu tirar sem flash. E não mexe senão fica tremido!!!

Pronto, doeu? Pode voltar a dormir agora.
Puxou a mãe na chatura pra tirar foto. :D