Algo não está certo aqui.
Ultimamente eu tenho tido muita vontade de falar aqui sobre algumas coisas que eu tenho pensado sobre mas abro o bloco de notas, escrevo até a ponta dos dedos sangrarem e depois fecho, sem pensar duas vezes antes de clicar "não" quando o computador me questiona sobre minhas certezas. Eu só tenho certeza de uma coisa, de que eu não quero salvar.
Outro dia eu tive a chance de dar uma aula pros meus colegas de sala. A professora pediu pra que abordássemos alguma coisa relacionada às nossas monografias eu escolhi falar sobre feminismo, que até ALGUMA coisa a ver com a minha monografia tem, mas não necessariamente. Enfim, eu queria trazer a análise de imagens de acordo com o gênero pra minha sala de artes visuais. Por mim, teríamos um semestre inteiro, ou até dois, analisando imagens de acordo com o nosso meio sociológico, especialmente imagens da indústria cultural e veículos de comunicação. Ainda acho, na minha mais honesta opinião, que a UEMG está entregando diplomas a muitos analfabetos visuais que provavelmente serão responsáveis pela educação visual de milhares de crianças, e com isso eu quero dizer que o prognóstico da consciência sobre os estímulos externos desses indivíduos será tão prejudicada quanto já é hoje e assim serão tão manipuláveis quanto são os adultos de hoje e blablabla ainda bem que vão religar o grande colisor de hadrons e o mundo vai acabar que eu terei uma preocupação a menos com o futuro da humanidade. Do que eu falava mesmo? Ah, é... De feminismo.
O debate foi interessante, e devo dizer que apesar de ser uma sala com umas 30 mulheres e 3 homens as visões eram ainda extremamente cruas, inocentes quase... Duas semanas depois a moça com o vestido cor de rosa foi quase linchada numa suposta universidade. Acho curiosa a reação das pessoas sobre o acontecido. Porque eu tenho jogado o questionamento sobre os preconceitos de gênero em todo canto não é de hoje. Na verdade é bem possível que eu o venha fazendo desde que comecei a falar (reza a lenda familiar que eu nunca fui muito fã de regras sociais e usar o argumento "isso não é coisa de menina" era perder automaticamente a discussão). O fato é que essa revolta toda é incondizente com as informações que eu colho, informalmente, no dia a dia, sobre o tema.
A violência cometida na suposta universidade é o produto de uma soma de fatores que emergem diariamente nas nossas vidas e que nos é tão habitual que nos recusamos a sequer refletir sobre eles. Listá-los aqui levaria horas, quilõmetros e ainda assim eu não abordaria todos, existem blogs por aí que só falam disso, há anos, e ainda têm assunto. Mas pra ilustrar meu ponto roubo uma citação desse post do Trezentos:
”Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tinha sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado”.
Contardo Calligaris psicanalista (Folha de São Paulo, de 05/11/09, C. llustrada)
Eu suponho que esse tal Contardo seja um rapazote minimamente perspicaz, afinal o cara é psicanalista, escreve pra Folha, a gente imagina que a pessoa tenha bom senso. Ainda assim ele disse em uma entrevista que o feminismo já não tinha razão de existir. O curioso é que isso não é uma burrice individual, não é o pobre do Contardo que não sabe o que é e pra que serve o feminismo, quase ninguém sabe. Eu mesma, por mais que leia e pesquise sobre o assunto não me sinto segura em dizer que sei.
O que eu sei é que a imagem da mulher, como gênero, é constantemente atacada e muitas vezes com violência. O que eu sei, como mulher, é que eu não me sinto representada por aquilo que retratam ou que dizem sobre o que eu sou ou sobre o que eu deveria ser. O que eu sei é que a violência moral que eu sempre tentei ignorar na minha vida veio do mesmo balaio que a violência física que eu sofri e que só depois dela eu acordei pra enxergar o que estava realmente acontecendo no mundo em que eu vivo.
É fácil encontrar pessoas que se revoltam com a humilhação sofrida pela moça do vestido insinuante, mas difícil, por exemplo, encontrar pessoas revoltadas com tudo que permeia o que aconteceu, com tudo que gerou o que aconteceu. Porque não é sobre uma cambada de retardado numa universidade de segunda. Me limitando apenas à minha área de estudos - a imagem - o que gera aquela agressividade e desrespeito está em absolutamente qualquer jornal, revista, quadrinhos, quaisquer publicações gráficas, cinema, televisão, internet. Só que ao dizer isso, e ao demonstrar isso, o que não é a minha intenção nesse momento, até porque esse texto já está ficando longo demais, a resposta que se tem é de que é bobagem, neurose, exagero, isso quando a coisa não parte pra agressão pessoal, não falta gente pra dizer que você diz essas coisas porque é feminazi, feia, gorda, mal amada.
Então eu acho que toda essa compaixão pela moça do vestido é uma hipocrisia do caralho. porque não é isso que vai ressignificar o que é ser mulher, não é isso que vai fazer qualquer um parar pra pensar na brutalidade, na castração, na humilhação e tudo mais que sofremos todos os dias por todos os meios imagináveis. Então todos aqueles que estão crucificando os alunos imbecis da Uniban, sintam-se a vontade, mas é com pesar que eu informo que a maioria de vocês estão apenas esmurrando o espelho.

1 Comments:
Concordo, viu. E com diria Virgínia Woolf, tudo é uma questão de gênero. Resta-nos definir "gênero".
E reafirmo, digo de novo, porque é importante "não é isso que vai ressignificar o que é ser mulher, não é isso que vai fazer qualquer um parar pra pensar na brutalidade, na castração, na humilhação e tudo mais que sofremos todos os dias por todos os meios imagináveis".
Infelizmente, né. Já era hora de subir um degrau que seja sobre...
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