Internet archives
Fuçando no internet archives achei esse texto que eu escrevi em 2004 e tive um daqueles momentos "Há! não mudei quase nada." que ao mesmo tempo que é muito confortável é um pouco medonho. Como não tenho tipo tempo pra escrever coisas novas ó ele aí procês:
Quinta-feira, Março 11, 2004
Capítulos
- Ah! Você me contou isso!
- Sério? Nem me lembro. Isso que dá sair falando sem pensar. E esquecer tudo que falo. Hoje é capaz de você já me conhecer melhor do que eu mesma me conheço... E tem o que? Três vezes que a gente se encontrou e ficou assim num buteco falando aleatoriamente?
- Quatro já...
- Então! E eu falando, e você monossilábico, e eu me esquecendo, e você lembrando. Realmente, boto minhas fichas que você já me conhece melhor do que eu.
- Não exagera vai. Olha a paranóia emergindo!
- Tá vendo? A gente só se encontrou quatro vezes e você já conhece minhas paranóias. Isso é perigoso. Se bem que você deve ter muita informação sem update. Eu faço update dos meus pensamentos sabia?
- Não, não. - disse ele rindo - E como é isso?
- Não é que eu me contradigo sabe? É que eu mudo de idéia, na verdade eu mudo de idéia constantemente, e às vezes elas se contradizem. Mas nada proposital do tipo "me arrependi e vou mudar de idéia", geralmente eu nem lembro da primeira idéia e surge a segunda. Aí eu vou contar pra alguém que tem memória, assim como você, e a pessoa solta aquela: "Você está se contradizendo! Lembra quando você disse isso, isso e aquilo?" e quando eu respondo um sincero "não" ninguém acredita em mim. Você acredita em mim?
- Na maior parte das vezes... Eu acho... É, eu acho que sim.
- Então, é porque você só me encontrou quatro vezes. Porque com os anos você acaba percebendo que na verdade as idéias ficam se repetindo em ordem, mudam um pouco de contexto mas são sempre as mesmas idéias. E que no fundo uma não anula a outra. É só uma questão de ponto de vista. Não há como não acreditar em mim.
- Você tá querendo me dizer que se contradiz por uma questão de ponto de vista???
- Não, acho que eu usei a palavra errada. Eu não me contradigo, eu mudo de ponto de vida. Referencial. É como se fosse um ponto de vista de outro momento na vida. É quando você tem outros estímulos, outras experiências, e isso influencia naquilo que você tá pensando... Tá dando pra entender ou está ficando complexo demais pro nosso nível alcóolico?
- Tá sim.
- Você acha que eu tô falando bobeira? Acha que isso é papo de bêbado?
- Lá vem mais uma! Alguém já comentou que você é muito insegura?
- Claro, isso é a parte óbvia! Mas por um acaso você percebeu que eu sou muito segura na minha insegurança?
- Ahn???
- É, repara bem, na verdade ela é uma espécie de desculpa pra titubear. Eu primeiro convenço a todos que sou absolutamente insegura, depois disso eu posso sair tremendo, cambaleando, é que daí em diante eu tenho um aval. Do tipo "ah, mas é claro que ela está cambaleando, ela está insegura!". Imagine uma pessoa andando na corda bamba.
- Pior que você tá conseguindo fazer sentido.
- Claro que faz sentido! Tudo que eu falo faz sentido! Não que eu encontre ele antes de falar, mas com certeza se você precisar de um eu invento. Agora é sério, imaginou o cara na corda bamba?
- Sim, sim, continua.
- Então, se tiver uma rede de proteção ali embaixo ninguém bota fé no que ele tá fazendo, aliás, qualquer um pode andar numa corda bamba com uma proteçãozinha embaixo. Se cair tá salvo. Pode-se cair entende?
- Aham.
- Então, se ele tira a proteção ele fica correndo o risco de se machucar ou até morrer se cair, ele fica inseguro. Todo mundo acha normal que ele trema. A falta da rede dá o aval da insegurança, entende?
- E você pensou nisso tudo antes de convencer a todos que era insegura.
- Não. Não sei. Talvez tenha pensado e tenha tornado isso um hábito até me esquecer de que realmente pensei naquilo. Talvez não. Acho que eu só sempre fui insegura mesmo. Talvez eu tenha buscado ser mais segura e na minha total incapacidade de anular minha insegurança eu me senti segura dentro dela.
- É melhor cair e morrer?
- Claro, se for pra cair, caia direito. Mas pelo menos, enquanto você não cai, todo mundo vai te dar muito mais moral. Até você mesmo.
- Como assim você mesmo?
- É ué! Você é um conjunto de todos os integrantes do teatro que é a sua vida.
- Hein?
- Você é o roteirista, protagonista, iluminador, diretor, tudo! Se você é tudo você também está na platéia. Talvez só você seja a platéia.
- E aonde eu entro na sua vida?
- Hmmm boa pergunta. Não sei. Talvez sua equipe se junte à minha a cada vez que nós nos encontramos. E fazemos capítulos iguais pra histórias diferentes... Faz sentido né?
- Heis que surge a paranóia dos sentidos!
- Se você ficar analisando minhas paranóias eu vou ficar mais paranóica.
- Tá bom, tá bom, parei.
- E para de rir de mim! Eu não sou palhaça!
- Palhacinha! Linda!
- Pede mais uma vai...
- A gente vai ficar aqui só bebendo? Não vamos deixar esse capítulo conjunto de nossas histórias distintas ficar mais interessante?
- Vamos.. Vamos sim... Mas só depois que o bar fechar...

1 Comments:
Um exercício rápido de livre criação, talvez com referências reais, bom de ler no geral. bjs,!
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