Terça-feira, Agosto 11, 2009

Meu primeiro amor.

Quando eu era pequena fui apaixonada por dois meninos. Um desde que eu me entendia por gente até a quarta série e outro da quarta até a sétima série. Ambos diziam que se eu emagrecesse eles ficariam comigo e sempre que alguém fazia o favor de me lembrar disso eu me sentia o maior lixo-escória-biohazard da humanidade. Quando me sentia assim corria pros lados de JV, meu amiguinho, que solidariamente se calava e olhava pra baixo, tensionava os lábios demonstrando seu descontentamento com a minha miséria. Até que o mal estar passasse e voltássemos a brincar.

Hoje, olhando pra trás eu noto o quão imbecil eu era.

Meus dois musos eram baixinhos, chatos, desinteressantes, pretensiosos, meio feios, na verdade não exatamente feios, eles tinham traços que poderiam perfeitamente ser bonitos mas não conseguiam graças a desproporcionalidade. Enfim, não eram o tipo de gente que me inebria com palavras e também não seriam o tipo de pessoa que eu pediria pra posar pros meus desenhos ou pinturas. Não eram ninguém que eu gostaria de escutar por muito tempo e também não faziam o favor de ser alguém que eu gostaria de olhar por muito tempo. Há alguns anos eu encontrei com um deles, que continuava baixinho, mas agora também estava ficando careca, gordinho, e tinha se tornado o típico advogado meia-boca. Tentou, sem sucesso, mas insistentemente, iniciar uma conversa comigo numa festa de aniversário. Não tínhamos um só assunto em comum. Ele não se dava a esses assuntos super importantes que me atraem, como arte, rock, política, religião ou qualquer coisa que acenda os ânimos e gere discussões apaixonadas. Não. Ele falava dessas coisas mundanas que a gente nem lembra direito. Eu me limitava a respostas monossilábicas até perceber a grandiosidade da situação e ter que segurar o riso. Com uma desculpa esfarrapada, um tapinha no ombro e um falso pesar me livrei dele e rezei até meus joelhos sangrarem pra nunca mais ter que trombar com ele de novo.

Já JV era mais alto que eu, moreno, com cabelo de índio, rico toda vida e gente boa. Gostávamos de praticamente as mesmas coisas e poderíamos gastar muitas horas juntos sem que passasse um minuto. Tinha um bom caráter, era prestativo, cuidadoso, sensível, se não tiver desvirtuado nos caminhos da vida deve ser um daqueles homens de "não repara, aquele queixo no chão é o meu mesmo". Foi o protagonista de momentos muito importantes da minha vida.

Foi na casa de JV, fazendo um trabalho do bicentenário de Tiradentes, que todos meus coleguinhas de grupo resolveram encenar um clube das mulheres, tema em alta por causa de uma novela da época, pra uma platéia de uma mulher só: eu. Sabe, mal acostumada desde a infância. Sete espécimes do sexo masculino subindo em mesas, dançando e se despindo pra mim. Tudo porque eu não gostava de cor de rosa nem de pôneis, tudo porque meninas não tinham absolutamente NADA a ver comigo e assim só me restava o grupo dos meninos pra fazer trabalhos. A minha falta de frescura e de femininice me renderam o apreço pela sexualidade desde sempre. No mínimo me fizeram pensar "Opa! Que que é isso que acontece aqui dentro?" enquanto observava aquele bando de garotos se oferecendo pra mim, imitando o que viámos na novela.

Foi também na casa de JV que conheci o quão maravilhoso eram travesseiros de pluma de ganso. JV foi o primeiro homem que insistiu pra que eu dormisse com ele, na inocência dos 11 anos de idade, e só não foi o primeiro homem com o qual eu dormi porque meus pais não acharam isso tudo tão natural assim. O cara tinha a manha de me seduzir com travesseiros ultra macios e camas de mola. Provavelmente, se tivessem deixado que eu passasse a noite com ele teríamos passado uma boa parte do tempo acordados, falando de coisas que crianças de 11 anos falam, no meu caso o assunto provavelmente incluiria Stephen King e Freddy Krueger. Talvez jogássemos videogame, comessemos porcarias. Enfim, faríamos um monte de coisas divertidas, mas nada que envolvesse contatos físicos muito íntimos. Eu não era tão esperta naquele tempo, aposto que nem ele.

JV era O cara.

Todas as mulheres adultas me avisavam do meu foco ruim quando eu tinha 11 anos. Eu ignorava porque achava que era só uma maneira de me distrair do meu coração irremediavelmente partido pelos meninos que me desdenhavam. Não era. Ele era bonito mesmo. Muito. E precioso.

Os anos se passaram, não me lembro exatamente porque eu e JV nos afastamos. Eu tinha essa necessidade patológica de fazer amigas meninas por mais que elas me enchessem o saco e me torturassem. Não consigo me lembrar onde ele estava quando de fato encontrei uma menina da qual fazia sentido ser amiga. Uma que tinha a ver comigo, que gostava das mesmas coisas que eu. Só me lembro que 93 foi um ano solitário até a encontrar. Ele deve ter mudado de colégio ou algo assim porque quando o revi rapidamente, lá pra 95, já éramos estranhos um ao outro.

Eu estava com uma amiga, ele com um amigo. Tudo dentro das normas sociais. Dessa vez eu já o via com outros olhos e talvez por isso tenha ficado tão tímida perto dele. Ele já devia ter pra lá de um metro e oitenta, o cabelo era tão preto e liso que refletia a luz do Sol, olhos levemente puxados, estilo Rodrigo Santoro, moreno, sorriso encantador, continuava magrelo e estava de bicicleta. Era um desses eventos onde todo mundo vai de bicicleta, nem me lembro direito. Eu só estava no caminho, num bar, tomando cerveja com meus amiguinhos rebeldes. Nos falamos, coisa rápida, nada de especial, ele retornou ao caminho dele e eu à minha rebeldia. Nunca mais tive notícias.

Por tudo isso JV, e não aqueles garotos idiotas que me sacaneavam, fica na minha memória até hoje. Tem aquele lugar no coração que só primeiras paixões têm, aquele lugarzinho onde nenhuma outra pessoa vai pisar, o lugar onde se esconde todos os ideais e fantasias de amor da infância. Posso conhecer e amar mil homens, mas nenhum será tão perfeito quanto JV.

3 Comments:

At 3:14 PM, Blogger Massa said...

Você me deixou com saudades da inocência dos meus "namorinhos" e paixonites nos meus onze anos. E isso me lembrou que MEU FILHO acabou de fazer dez anos. :-D Putz que veiera.

 
At 10:30 PM, Blogger CàHeinecke said...

A pergunta que não quer calar: João Vitor? Juscelino Vanderlei? JESUS VALENTE? :O... A dúvida me consomeeeeee @_@~ (Hhauah brinks :D)

Nossa... Eu não lembro muito bem qual foi o meu primeiro amor =/. Não por não lembrar da pessoa em si, mas pelo que eu sentia direito.

Desde o Jardim I, na pré-escola, eu era O beijoqueiro da escola, pegava todas (selinho!)(MEU PASSADO ME CONDENA!), mas não lembro de nenhuma (HAUHEAUEHAUH). Já no período da 1ª a 3ª série eu namorava uma garota chamada Dimitria, era coisa de ELA me mandar cartinhas de amor e fotinhos dela e eu só mandava uma carta ou outra, do tipo MÍNIMO interesse =x

Na 3ª e 4ª séries eu tinha um SUPER MELHOR AMIGO que talvez possa ter sido meu primeiro gostar-amar-não-sei. Eu sei onde é a antiga casa dele, to pensando em passar lá :X

A partir daí mudei de escola e nunca mais vi o povo do "primário" (coisa BEM normal aqui em SP). Na 5ª e 6ª séries eu me apaixonei muuito por uma garota da escola nova que pode ter sido a primeira tbm, mas eu era tão próximo dela e tão tímido que a gente era até famosinho na sala como o casalzinho fofo, mas eu nunca pedi pra ficar com ela, eu morria de medo de ser rejeitado x_x. (Ná sétima série ela saiu da escola e atualmente mora na Turquia -Q) E só :D

Ok, eu sempre exagero nos meus comentários... mas sempre que leio eu morro de vontade de contar minha vida xD.

Quando eu vi o título do post soltei um "AHHHH Q FOFOOOO", mas como ele é extenso eu tive q deixar pra ler depois (no caso, agora) xD

Ótimo post, Lori :) No meu caso, quando olho pra trás, só vejo oportunidades perdidas e isso só me deprime mais e mais, tomara que não seja assim com vc também.

Beijs ;***

 
At 12:12 PM, Anonymous Anônimo said...

Cheguei ao teu blog por acaso, pq acompanho um certo hacker de gameboy e ele comentou de ti pelo twitter...

Estou dando um tempo em casa, lendo seu post, antes de sair para encontrar com uma amiga.

Sua narrativa me tocou e fez lembrar-me da minha época de amor inocente...quantos olhares trocados, palavras não-ditas, oportunidades aproveitadas e outras perdidas.

Eu te agradeço do fundo do coração por ter me ajudado a trazer estas lembranças de 20 anos atrás, de volta ao dia de hoje. Me fazem ver como eu era e como eu sou hoje. Melhorei ? Sem dúvida!

um abraço!
C

 

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