Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Algo não está certo aqui.

Ultimamente eu tenho tido muita vontade de falar aqui sobre algumas coisas que eu tenho pensado sobre mas abro o bloco de notas, escrevo até a ponta dos dedos sangrarem e depois fecho, sem pensar duas vezes antes de clicar "não" quando o computador me questiona sobre minhas certezas. Eu só tenho certeza de uma coisa, de que eu não quero salvar.

Outro dia eu tive a chance de dar uma aula pros meus colegas de sala. A professora pediu pra que abordássemos alguma coisa relacionada às nossas monografias eu escolhi falar sobre feminismo, que até ALGUMA coisa a ver com a minha monografia tem, mas não necessariamente. Enfim, eu queria trazer a análise de imagens de acordo com o gênero pra minha sala de artes visuais. Por mim, teríamos um semestre inteiro, ou até dois, analisando imagens de acordo com o nosso meio sociológico, especialmente imagens da indústria cultural e veículos de comunicação. Ainda acho, na minha mais honesta opinião, que a UEMG está entregando diplomas a muitos analfabetos visuais que provavelmente serão responsáveis pela educação visual de milhares de crianças, e com isso eu quero dizer que o prognóstico da consciência sobre os estímulos externos desses indivíduos será tão prejudicada quanto já é hoje e assim serão tão manipuláveis quanto são os adultos de hoje e blablabla ainda bem que vão religar o grande colisor de hadrons e o mundo vai acabar que eu terei uma preocupação a menos com o futuro da humanidade. Do que eu falava mesmo? Ah, é... De feminismo.

O debate foi interessante, e devo dizer que apesar de ser uma sala com umas 30 mulheres e 3 homens as visões eram ainda extremamente cruas, inocentes quase... Duas semanas depois a moça com o vestido cor de rosa foi quase linchada numa suposta universidade. Acho curiosa a reação das pessoas sobre o acontecido. Porque eu tenho jogado o questionamento sobre os preconceitos de gênero em todo canto não é de hoje. Na verdade é bem possível que eu o venha fazendo desde que comecei a falar (reza a lenda familiar que eu nunca fui muito fã de regras sociais e usar o argumento "isso não é coisa de menina" era perder automaticamente a discussão). O fato é que essa revolta toda é incondizente com as informações que eu colho, informalmente, no dia a dia, sobre o tema.

A violência cometida na suposta universidade é o produto de uma soma de fatores que emergem diariamente nas nossas vidas e que nos é tão habitual que nos recusamos a sequer refletir sobre eles. Listá-los aqui levaria horas, quilõmetros e ainda assim eu não abordaria todos, existem blogs por aí que só falam disso, há anos, e ainda têm assunto. Mas pra ilustrar meu ponto roubo uma citação desse post do Trezentos:

”Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tinha sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado”.
Contardo Calligaris psicanalista (Folha de São Paulo, de 05/11/09, C. llustrada)

Eu suponho que esse tal Contardo seja um rapazote minimamente perspicaz, afinal o cara é psicanalista, escreve pra Folha, a gente imagina que a pessoa tenha bom senso. Ainda assim ele disse em uma entrevista que o feminismo já não tinha razão de existir. O curioso é que isso não é uma burrice individual, não é o pobre do Contardo que não sabe o que é e pra que serve o feminismo, quase ninguém sabe. Eu mesma, por mais que leia e pesquise sobre o assunto não me sinto segura em dizer que sei.

O que eu sei é que a imagem da mulher, como gênero, é constantemente atacada e muitas vezes com violência. O que eu sei, como mulher, é que eu não me sinto representada por aquilo que retratam ou que dizem sobre o que eu sou ou sobre o que eu deveria ser. O que eu sei é que a violência moral que eu sempre tentei ignorar na minha vida veio do mesmo balaio que a violência física que eu sofri e que só depois dela eu acordei pra enxergar o que estava realmente acontecendo no mundo em que eu vivo.

É fácil encontrar pessoas que se revoltam com a humilhação sofrida pela moça do vestido insinuante, mas difícil, por exemplo, encontrar pessoas revoltadas com tudo que permeia o que aconteceu, com tudo que gerou o que aconteceu. Porque não é sobre uma cambada de retardado numa universidade de segunda. Me limitando apenas à minha área de estudos - a imagem - o que gera aquela agressividade e desrespeito está em absolutamente qualquer jornal, revista, quadrinhos, quaisquer publicações gráficas, cinema, televisão, internet. Só que ao dizer isso, e ao demonstrar isso, o que não é a minha intenção nesse momento, até porque esse texto já está ficando longo demais, a resposta que se tem é de que é bobagem, neurose, exagero, isso quando a coisa não parte pra agressão pessoal, não falta gente pra dizer que você diz essas coisas porque é feminazi, feia, gorda, mal amada.

Então eu acho que toda essa compaixão pela moça do vestido é uma hipocrisia do caralho. porque não é isso que vai ressignificar o que é ser mulher, não é isso que vai fazer qualquer um parar pra pensar na brutalidade, na castração, na humilhação e tudo mais que sofremos todos os dias por todos os meios imagináveis. Então todos aqueles que estão crucificando os alunos imbecis da Uniban, sintam-se a vontade, mas é com pesar que eu informo que a maioria de vocês estão apenas esmurrando o espelho.

Domingo, Outubro 25, 2009

Martelo batido.

- Tenho esse negócio aqui, quer experimentar?
- Pode ser.
- É bom né?
- Porra, bom pra caralho.
- E se a gente botasse isso aqui?
- Puta que pariu!!!
- Sensacional né?
- Cara, MELHOR COISA EVER que eu já provei.
- Num é?
- Ô!
- Melhor que Doritos Sweet Chili!
- Melhor que tudo!

[...]

- Aqui.. Trouxe daquele negócio... Quer?
- Nah...
- Não?
- Não.
- Mas é sensacional! É a melhor coisa que a gente já provou na vida toda em todo o universo e via lactea!
- É bom mesmo. Muito bom. Não, mesmo assim.
- Olha só, eu curti MUITO esse negócio, mas eu não vou ficar insistindo.
- Sério, não, obrigado.
- É a última vez que eu te ofereço. Tem certeza?
- Tenho sim, é que eu preciso cuidar desse outro negócio.
- Esse outro negócio não parece tão bom...
- Mas eu vou continuar nele.
- Eu nunca mais vou oferecer. E se você pedir eu não vou dar.
- Tudo bem, eu sei disso. Essa é a minha decisão.
- Tá bom, beijos.
- Beijos.




Por isso eu nunca entenderei pessoas.

Domingo, Setembro 13, 2009

Internet archives

Fuçando no internet archives achei esse texto que eu escrevi em 2004 e tive um daqueles momentos "Há! não mudei quase nada." que ao mesmo tempo que é muito confortável é um pouco medonho. Como não tenho tipo tempo pra escrever coisas novas ó ele aí procês:

Quinta-feira, Março 11, 2004

Capítulos

- Ah! Você me contou isso!

- Sério? Nem me lembro. Isso que dá sair falando sem pensar. E esquecer tudo que falo. Hoje é capaz de você já me conhecer melhor do que eu mesma me conheço... E tem o que? Três vezes que a gente se encontrou e ficou assim num buteco falando aleatoriamente?

- Quatro já...

- Então! E eu falando, e você monossilábico, e eu me esquecendo, e você lembrando. Realmente, boto minhas fichas que você já me conhece melhor do que eu.

- Não exagera vai. Olha a paranóia emergindo!

- Tá vendo? A gente só se encontrou quatro vezes e você já conhece minhas paranóias. Isso é perigoso. Se bem que você deve ter muita informação sem update. Eu faço update dos meus pensamentos sabia?

- Não, não. - disse ele rindo - E como é isso?

- Não é que eu me contradigo sabe? É que eu mudo de idéia, na verdade eu mudo de idéia constantemente, e às vezes elas se contradizem. Mas nada proposital do tipo "me arrependi e vou mudar de idéia", geralmente eu nem lembro da primeira idéia e surge a segunda. Aí eu vou contar pra alguém que tem memória, assim como você, e a pessoa solta aquela: "Você está se contradizendo! Lembra quando você disse isso, isso e aquilo?" e quando eu respondo um sincero "não" ninguém acredita em mim. Você acredita em mim?

- Na maior parte das vezes... Eu acho... É, eu acho que sim.

- Então, é porque você só me encontrou quatro vezes. Porque com os anos você acaba percebendo que na verdade as idéias ficam se repetindo em ordem, mudam um pouco de contexto mas são sempre as mesmas idéias. E que no fundo uma não anula a outra. É só uma questão de ponto de vista. Não há como não acreditar em mim.

- Você tá querendo me dizer que se contradiz por uma questão de ponto de vista???

- Não, acho que eu usei a palavra errada. Eu não me contradigo, eu mudo de ponto de vida. Referencial. É como se fosse um ponto de vista de outro momento na vida. É quando você tem outros estímulos, outras experiências, e isso influencia naquilo que você tá pensando... Tá dando pra entender ou está ficando complexo demais pro nosso nível alcóolico?

- Tá sim.

- Você acha que eu tô falando bobeira? Acha que isso é papo de bêbado?

- Lá vem mais uma! Alguém já comentou que você é muito insegura?

- Claro, isso é a parte óbvia! Mas por um acaso você percebeu que eu sou muito segura na minha insegurança?

- Ahn???

- É, repara bem, na verdade ela é uma espécie de desculpa pra titubear. Eu primeiro convenço a todos que sou absolutamente insegura, depois disso eu posso sair tremendo, cambaleando, é que daí em diante eu tenho um aval. Do tipo "ah, mas é claro que ela está cambaleando, ela está insegura!". Imagine uma pessoa andando na corda bamba.

- Pior que você tá conseguindo fazer sentido.

- Claro que faz sentido! Tudo que eu falo faz sentido! Não que eu encontre ele antes de falar, mas com certeza se você precisar de um eu invento. Agora é sério, imaginou o cara na corda bamba?

- Sim, sim, continua.

- Então, se tiver uma rede de proteção ali embaixo ninguém bota fé no que ele tá fazendo, aliás, qualquer um pode andar numa corda bamba com uma proteçãozinha embaixo. Se cair tá salvo. Pode-se cair entende?

- Aham.

- Então, se ele tira a proteção ele fica correndo o risco de se machucar ou até morrer se cair, ele fica inseguro. Todo mundo acha normal que ele trema. A falta da rede dá o aval da insegurança, entende?

- E você pensou nisso tudo antes de convencer a todos que era insegura.

- Não. Não sei. Talvez tenha pensado e tenha tornado isso um hábito até me esquecer de que realmente pensei naquilo. Talvez não. Acho que eu só sempre fui insegura mesmo. Talvez eu tenha buscado ser mais segura e na minha total incapacidade de anular minha insegurança eu me senti segura dentro dela.

- É melhor cair e morrer?

- Claro, se for pra cair, caia direito. Mas pelo menos, enquanto você não cai, todo mundo vai te dar muito mais moral. Até você mesmo.

- Como assim você mesmo?

- É ué! Você é um conjunto de todos os integrantes do teatro que é a sua vida.

- Hein?

- Você é o roteirista, protagonista, iluminador, diretor, tudo! Se você é tudo você também está na platéia. Talvez só você seja a platéia.

- E aonde eu entro na sua vida?

- Hmmm boa pergunta. Não sei. Talvez sua equipe se junte à minha a cada vez que nós nos encontramos. E fazemos capítulos iguais pra histórias diferentes... Faz sentido né?

- Heis que surge a paranóia dos sentidos!

- Se você ficar analisando minhas paranóias eu vou ficar mais paranóica.

- Tá bom, tá bom, parei.

- E para de rir de mim! Eu não sou palhaça!

- Palhacinha! Linda!

- Pede mais uma vai...

- A gente vai ficar aqui só bebendo? Não vamos deixar esse capítulo conjunto de nossas histórias distintas ficar mais interessante?

- Vamos.. Vamos sim... Mas só depois que o bar fechar...

Terça-feira, Agosto 11, 2009

Meu primeiro amor.

Quando eu era pequena fui apaixonada por dois meninos. Um desde que eu me entendia por gente até a quarta série e outro da quarta até a sétima série. Ambos diziam que se eu emagrecesse eles ficariam comigo e sempre que alguém fazia o favor de me lembrar disso eu me sentia o maior lixo-escória-biohazard da humanidade. Quando me sentia assim corria pros lados de JV, meu amiguinho, que solidariamente se calava e olhava pra baixo, tensionava os lábios demonstrando seu descontentamento com a minha miséria. Até que o mal estar passasse e voltássemos a brincar.

Hoje, olhando pra trás eu noto o quão imbecil eu era.

Meus dois musos eram baixinhos, chatos, desinteressantes, pretensiosos, meio feios, na verdade não exatamente feios, eles tinham traços que poderiam perfeitamente ser bonitos mas não conseguiam graças a desproporcionalidade. Enfim, não eram o tipo de gente que me inebria com palavras e também não seriam o tipo de pessoa que eu pediria pra posar pros meus desenhos ou pinturas. Não eram ninguém que eu gostaria de escutar por muito tempo e também não faziam o favor de ser alguém que eu gostaria de olhar por muito tempo. Há alguns anos eu encontrei com um deles, que continuava baixinho, mas agora também estava ficando careca, gordinho, e tinha se tornado o típico advogado meia-boca. Tentou, sem sucesso, mas insistentemente, iniciar uma conversa comigo numa festa de aniversário. Não tínhamos um só assunto em comum. Ele não se dava a esses assuntos super importantes que me atraem, como arte, rock, política, religião ou qualquer coisa que acenda os ânimos e gere discussões apaixonadas. Não. Ele falava dessas coisas mundanas que a gente nem lembra direito. Eu me limitava a respostas monossilábicas até perceber a grandiosidade da situação e ter que segurar o riso. Com uma desculpa esfarrapada, um tapinha no ombro e um falso pesar me livrei dele e rezei até meus joelhos sangrarem pra nunca mais ter que trombar com ele de novo.

Já JV era mais alto que eu, moreno, com cabelo de índio, rico toda vida e gente boa. Gostávamos de praticamente as mesmas coisas e poderíamos gastar muitas horas juntos sem que passasse um minuto. Tinha um bom caráter, era prestativo, cuidadoso, sensível, se não tiver desvirtuado nos caminhos da vida deve ser um daqueles homens de "não repara, aquele queixo no chão é o meu mesmo". Foi o protagonista de momentos muito importantes da minha vida.

Foi na casa de JV, fazendo um trabalho do bicentenário de Tiradentes, que todos meus coleguinhas de grupo resolveram encenar um clube das mulheres, tema em alta por causa de uma novela da época, pra uma platéia de uma mulher só: eu. Sabe, mal acostumada desde a infância. Sete espécimes do sexo masculino subindo em mesas, dançando e se despindo pra mim. Tudo porque eu não gostava de cor de rosa nem de pôneis, tudo porque meninas não tinham absolutamente NADA a ver comigo e assim só me restava o grupo dos meninos pra fazer trabalhos. A minha falta de frescura e de femininice me renderam o apreço pela sexualidade desde sempre. No mínimo me fizeram pensar "Opa! Que que é isso que acontece aqui dentro?" enquanto observava aquele bando de garotos se oferecendo pra mim, imitando o que viámos na novela.

Foi também na casa de JV que conheci o quão maravilhoso eram travesseiros de pluma de ganso. JV foi o primeiro homem que insistiu pra que eu dormisse com ele, na inocência dos 11 anos de idade, e só não foi o primeiro homem com o qual eu dormi porque meus pais não acharam isso tudo tão natural assim. O cara tinha a manha de me seduzir com travesseiros ultra macios e camas de mola. Provavelmente, se tivessem deixado que eu passasse a noite com ele teríamos passado uma boa parte do tempo acordados, falando de coisas que crianças de 11 anos falam, no meu caso o assunto provavelmente incluiria Stephen King e Freddy Krueger. Talvez jogássemos videogame, comessemos porcarias. Enfim, faríamos um monte de coisas divertidas, mas nada que envolvesse contatos físicos muito íntimos. Eu não era tão esperta naquele tempo, aposto que nem ele.

JV era O cara.

Todas as mulheres adultas me avisavam do meu foco ruim quando eu tinha 11 anos. Eu ignorava porque achava que era só uma maneira de me distrair do meu coração irremediavelmente partido pelos meninos que me desdenhavam. Não era. Ele era bonito mesmo. Muito. E precioso.

Os anos se passaram, não me lembro exatamente porque eu e JV nos afastamos. Eu tinha essa necessidade patológica de fazer amigas meninas por mais que elas me enchessem o saco e me torturassem. Não consigo me lembrar onde ele estava quando de fato encontrei uma menina da qual fazia sentido ser amiga. Uma que tinha a ver comigo, que gostava das mesmas coisas que eu. Só me lembro que 93 foi um ano solitário até a encontrar. Ele deve ter mudado de colégio ou algo assim porque quando o revi rapidamente, lá pra 95, já éramos estranhos um ao outro.

Eu estava com uma amiga, ele com um amigo. Tudo dentro das normas sociais. Dessa vez eu já o via com outros olhos e talvez por isso tenha ficado tão tímida perto dele. Ele já devia ter pra lá de um metro e oitenta, o cabelo era tão preto e liso que refletia a luz do Sol, olhos levemente puxados, estilo Rodrigo Santoro, moreno, sorriso encantador, continuava magrelo e estava de bicicleta. Era um desses eventos onde todo mundo vai de bicicleta, nem me lembro direito. Eu só estava no caminho, num bar, tomando cerveja com meus amiguinhos rebeldes. Nos falamos, coisa rápida, nada de especial, ele retornou ao caminho dele e eu à minha rebeldia. Nunca mais tive notícias.

Por tudo isso JV, e não aqueles garotos idiotas que me sacaneavam, fica na minha memória até hoje. Tem aquele lugar no coração que só primeiras paixões têm, aquele lugarzinho onde nenhuma outra pessoa vai pisar, o lugar onde se esconde todos os ideais e fantasias de amor da infância. Posso conhecer e amar mil homens, mas nenhum será tão perfeito quanto JV.

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Orgulho de ser gordinha.

Há muito tempo eu venho pensando em escrever sobre uma coisa aqui no blog. Não raro meninas vêm me encher de perguntas sobre como eu consigo ser tão tranquila com o meu peso e a minha forma física. Diferente de 90% das mulheres que eu conheço eu não jogo a culpa de todos os males da minha vida no meu excesso de peso e muito menos acho que alguma coisa seria diferente se eu fosse magra.

Aliás há pouco tempo aconteceu a coisa mais engraçada comigo. Conversando com uma conhecida eu fui descobrir que a conhecia de muito antes, ela tinha emagrecido tanto que teve que me contar que ela era uma menina gordinha com a qual eu conversava direto. Tudo bem que eu não sou a pessoa mais atenta ao universo ao meu redor, mas pensa no quanto essa menina tinha ficado diferente pra que eu não notasse que era a mesma pessoa. Ela fez aquela cirurgia de redução do estômago e, quando eu perguntei como era, a resposta foi ríspida:
- Não muda nada.

Eu morri de rir porque entendi perfeitamente o que ela achou que eu queria saber quando soltou essa frase. Comentei que isso eu já imaginava e conversamos um monte sobre o quanto as pessoas gordinhas acreditam que teriam outra vida se fossem magras e que na verdade uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu mesma, quando me pego pensando "e se" tento rever toda a conversa que nós tivemos pra voltar pro mundo real.

Pessoalmente eu acredito que uma série de coisas fazem com que a gente engorde, e eu não estou falando de comida e sedentarismo. Pra mim existem motivos emocionais pra que alguém acumule peso, mas não passa pela minha cabeça a intenção de convencer alguém disso. Muito menos sei como resolver. Só tenho certeza de que alguém emocionalmente saudável é capaz de comer alimentos que lhe façam bem, em quantidades adequadas e de se exercitar com a frequência necessária pra ter um bom preparo físico e uma vida saudável.

Eu, até agora, não sou.

Eu sou uma bagunça emocional e com o tempo eu fui perceber que o quanto eu peso é o menor dos meus problemas.

É claro que existe uma puta pressão de todos os lados, principalmente quando se é mulher, tentando te convencer de que você só vai ser feliz quando tiver uma aparência que esteja de acordo com os padrões vigentes, mas desculpaí, enquanto não inventarem "Photoshop - Ao vivo! Compre agora por 12 vezes de $499,99" nenhuma mulher vai conseguir. E eu até gosto de ter duas pernas e tal.

O fato é que muita mulher acha que a raiz dos seus problemas, principalmente com os homens, está no excesso de peso e nesse caso eu posso afirmar que é lenda. Dos 6 aos 12 anos eu escutei da minha mãe, e não só dela, que se não desse um jeito de emagrecer não conseguiria arrumar um namorado. Dos 13 até hoje só escuto "será que você não poderia quietar com um rapaz só?" e respondo "Quando algum deles valer o preço, claro".

Namorar é um negócio caro, ninguém comenta isso. Não é sobre dinheiro, é sobre vida. Pode ser porque eu tenha que estudar, trabalhar, ter amigos, vida social, tempo livre pra escrever, pintar, até hoje não melhorei na guitarra por pura falta de tempo pra praticar. Além do que namorar me impede de experimentar outras pessoas. Poderia conhecer alguém que beije melhor, trepe melhor, tenha um papo mais agradável. Que na média valha mais a pena do que quem quer que tenha a minha fidelidade. Ou então alguém que simplesmente seja pior em tudo, mas que faça meu coração acelerar e me faltar ar. O bom do último caso é que esse fogo dura pouco, porque né? Quem ia querer passar um tempão com um cara pior em tudo?

Quando eu abro uma exceção pra namorar normalmente são os caras mais bonitos, mais legais, mais interessantes. E quando eu digo isso não estou apenas expressando minha opinião pessoal: é senso comum. Odeio dizer isso publicamente porque o valor de mercado dos meus ex's sobe vertiginosamente, e mesmo que eu não vá jantar o peixe não gosto de vendê-lo, mas só não diria se fosse mentira. Todos meus ex-namorados, sem exceção, eram caras sensacionais. E não, nenhum fez nada horrendo contra mim ao contrário do que frequentemente dou a entender. Note, eu sempre SÓ DOU A ENTENDER, nunca digo nada sólido, é simplesmente porque não tenho o que dizer, eu termino quando noto que não tem pra onde crescer, só isso.

(E esse último parágrafo foi um SUPER momento amadurecimento pessoal, nunca na história desse país eu acharia que diria isso em "voz alta")

Já minhas amigas, tão lindas, tão inteligentes, perdem um tempo danado com caras frouxos, babacas, abaixo da média. A cereja do bolo é quando concluem que toda essa desgraça é porque estão 2 ou 3 quilos acima do que imaginam ser o ideal.

Talvez seja mais fácil pra mim porque nunca fui magra e tive que lidar com essa verdade desde as minhas primeiras paixões. Então comecei a escrever contando como foi o desenvolvimento da minha vida amorosa por que achei que poderia ajudar a responder essas perguntas que tanto me fazem. Só sei que algumas horas depois eu tinha alguns quilômetros de palavras escritas no Bloco de notas e não tinha chegado nem no meu primeiro namorado. Se eu quisesse, dava um livro, mas pra que livro quando eu posso fazer tudo desleixadamente e ir soltando aqui no blog? Menos trabalhoso. Então é isso, não estranhem que de agora em diante todos os meus posts sejam sobre como se construiu a minha relação com os homens. Tenho alguns prontos que eu vou agendar. Vamos ver se isso rende (e com essa frase eu quis dizer, vamos ver se eu não desisto no meio). :D

Sexta-feira, Julho 24, 2009

O que incomoda é essa sensação de que nunca vai mudar. De que os intelectualizados vão continuar alegando que são só de brincadeira todas as manifestações de preconceito de gênero. Que as moderninhas vão continuar chamando de liberdade sexual suas competições por futilidades. De que os desprovidos de educação formal, caráter, respeito, continuem punindo com força e abuso sexual toda mulher que acreditar ser dona do próprio corpo e senhora de sua sexualidade. E porque não puniriam? Vivem na selvageria e ninguém numa acima deles na cadeia alimentar social reforça que a mulher é um ser humano.

Mulher é sempre parte. Mulher é melhor calada, obediente e pelada. Mulher boa é aquela que espera ser completa no outro. Que precisa do outro. Que sobrevive à ausência do outro. Que cria os filhos do outro. Um grande receptáculo de porra, é isso que a mulher é.

E elas sofrem, choram, muitas se submetem.

O que dói não é a brincadeira, mas a ausência de diálogo. São os calabocas, são as provocações, são os xingamentos. Diálogo com quem se mulher não fala? Mulher só fala se concorda. Mulher é boa quando concorda.

Então vão lá, mostrem a bunda e ganhem menos. Gastem mais. Gastem muito com salão de beleza e renda francesa. Finjam que acreditam em tudo que escutam. Finjam que não vivem no mundo que eu vejo, errado e repressor. Aproveitem e finjam que tudo se reduz a sapatos. Comprem muitos sapatos. Finjam orgasmos também. Repitam até soar verdadeiro que tamanho não importa. Dependam. Dependam pra tudo. Dependam pra pagar as contas. Dependam pra abrir jarra de palmito.

O outro é frágil sabe? Parece que não, mas é. Encene o tempo inteiro pra que ele não fique inseguro. Encene e ele vai se sentir um macho alpha. Quando ele finalmente acreditar que é tudo, você vai ser automaticamente reduzida a nada. Faça que não se importa. Compre mais sapatos.

Sexta-feira, Julho 10, 2009

- Você pararia a sua vida pra se dedicar exclusivamente a catar cueca de marido na sala e cuidar de filho?
- Depende. Estamos falando do Fábio Jr?

Domingo, Junho 21, 2009

And though I still hate school I've almost got my degree...

Enquanto o povo chora/critica/elogia o fim da necessidade de diploma de jornalismo pra exercer a profissão eu enfrento o que seria, teoricamente, o penúltimo período de Artes Visuais. Nunca precisou de diploma pra ser artista, então eu tô lá de bobeira mesmo. Mentira, faço licenciatura então eu posso dar aula em escolas no ensino fundamental e médio, mas honestamente quando eu penso nisso também penso em me matar e pra me matar eu não preciso de diploma.

E a treta da USP? Sabe, eu só acho que não dá pra meter polícia nessas merdas. "Ah, porque os grevistas não representam a maioria dos alunos", tudo bem, basta que a maioria dos alunos se movimente, vote, participe e corra atrás disso como eles fizeram posteriormente, desmascarando o movimento estudantil falido da USP. Incentivar a apatia política, com bombas sendo atiradas dentro do campus, é que não dá, saca?

Lá na UEMG tivemos movimentações esse ano. Primeira vez, desde que entrei lá. Aliás acho que é a primeira vez que existe um DA também. Até hoje não existe um DCE. É que quando trocaram a Escola de Design de lugar sumiram com a documentação necessária pra formar um DCE, e só a encontraram de novo esse ano no porão da FAE, na pilha de "coisas separadas pra serem enviadas pra alguma unidade obscura no interior". A UEMG é uma universidade de muitos campi, tem até esse povo jogado no interior, sem verba, sem qualidade de ensino e sem contatos com qualquer um que possa agregar volume à falta de voz deles. Porque no fundo é isso, nós alunos, todos juntos, berrando, não temos quase voz nenhuma. Quando junta uns 2 cursos inteiros pra reivindicar alguma coisa faz um chiadinho que eles correm pra calar bem rápido. "Ah, mas não ter um DCE é ilegal", num é? Também acho, me disseram isso, mas o que fazer? Como fazer?

A justiça é meio falha nesse ponto. Existem tantas leis e tantas coisas a nosso favor e um caminho extremamente obscuro pra alcançá-las.

O ponto que eu queria comentar é que nessa história toda também houve uma tentativa partidária/sindical de usar a nossa voz em prol das reivindicações alheias. Sorte nossa que tinha eu ali naquela assembléia, bem mais velha, experiente e imponente. Como uma irmã mais velha dei ordem pra que todos meus coleguinhas se retirassem. Uma boa parte deles obedeceram e isso cessou as tentativas de manipulação, pelo menos naquele momento e no decorrer da solução do nosso problema. Não foi nada democrático, note, eu ordenei, fui incisiva e só saíram aqueles que ou confiavam em mim sem maiores questionamentos ou ficaram com medo (é, eu causo isso nas pessoas às vezes). Ao mesmo tempo, alguns ficaram.

Acho que é porque no fundo a maioria dos jovens quer mudar o mundo sabe? Mudar essa justiça dos que podem pagar. Mudar essa coisa do Estado propagandear enganosamente que super investe na Universidade e que educação é uma prioridade. O discurso sindical/partidário é muito bonito e eficaz na tentativa de convencê-los de que alguma dessas coisas é mutável. Eles são líderes e são bons nisso, eu, por exemplo, não sou. Só oscilo entre ser extremamente autoritária e ter boa argumentação e paciência pra explicar e debater as coisas. Ainda tem essa coisa de ser pouco intolerante com burrice excessiva, então no fundo, quem demora demais pra entender ou quem tem um alcance de visão muito limitado eu quero mais é que se foda. Quer fazer piquete pra defender causas sindicais e ignorar seus próprios problemas como cidadão/estudante? Vai lá, beijos e por favor, não me liga.

Mas um dia ainda consigo fazer com que a minha falta de voz seja ouvida. Só nem imagino como....

Quinta-feira, Junho 18, 2009

This world seems like a nice place to visit, but I don't want to live in it.

Outro dia eu tive uma briga com a minha prima por um motivo muito simples. Ela tem mania de odiar classes inteiras de pessoas, numa dessas declarações de ódio gratuito eu me senti incluída e agredida. O pau foi feio, fiquei verdadeiramente ofendida e magoada. Claro, ela sendo minha prima e querida por mim, bastou que se desculpasse e esclarecesse melhor a situação e estamos na boa de novo. Mas isso tudo estou dizendo só para afirmar o seguinte:
Preconceito é uma merda.

É simples assim. Se você tem idéias pré-concebidas sobre um grupo de pessoas por qualquer motivo, se julga as coisas sem reconhecer que talvez simplesmente as desconheça, você está sendo preconceituoso e ridículo.

Sim, ridículo.

E porque estou falando isso, tem esse cara, o @rmaruo, minks meu de tempos de mirc, pessoa pela qual eu nutro um bem querer há anos, e hoje me indicou um podcast. Estava estressada, querendo distrair, aquela coisa de fim de semestre habitual, e segui a dica. Nem mesmo sabia que ele participava do tal podcast, fui descobrir no decorrer do negócio.

Enfim, fui escutando e de repente noto que o podcast é na verdade um grupo de pessoas fazendo gracinha, fingindo que está discutindo pós-modernidade, arte, cinema de arte, Marx, Sartre, o cacete.

Fingindo porque o faziam exatamente como a vovó maligna fazia antigamente pra fingir que falava alguma língua estrangeira:
- blobsblobsblobsblobsblobs.

Exemplo melhor, o que eles falavam soava bem mais como:
- Patinete na agulha fazer bolinha como telefone.

E foi isso por, sei lá, uns 30 minutos para então dizer que estavam imitando um grupo de pessoas que eles denominam Pimbas. Eu acho irônico que esse tipo de atitude venha de um grupo que se auto-denomina nerd. Talvez, se eles tivessem gravado um blablabla desse tipo, dessas pessoas em específico, eles teriam um ponto, ou um argumento, ou qualquer coisa que o valha. O que pareceu, honestamente, é que eles acreditam que as pessoas que discutem os assuntos levantados não falam nada com nada ou que, ainda, não sejam discussões válidas.

Me lembra uma vez que eu e Gu discutíamos qualquer coisa de Spiderman no intervalo na faculdade e uma colega de sala foi embora puta falando que nós dois éramos um saco porque não falávamos nada com nada. A gente realmente estava sendo um saco, porque estávamos entretidos no nosso gibberish e, com isso, a excluímos da conversa. Essa colega, em momento nenhum, se daria ao trabalho de dizer que éramos pseudo qualquer coisa só porque falávamos de um assunto que ela desconhecia, ela não se acha melhor ou pior que ninguém, se falássemos de Miró, por exemplo, ela entenderia e se divertiria com a conversa. São áreas de interesse. Tem gente que gosta de Spiderman e tem gente que gosta de Win Wenders. Tem gente até que morre de rir quando descobre que o primeiro nome do Win Wenders é Ernst porque se lembra de Oscar Wilde.

E tem gente que não entende. E acha arrogância, e acha nada com nada, e critica. Qual a diferença de perder seu tempo lendo sabedeusquantos livros do Tolkien ou ler Nietzsche? É tudo entretenimento e é tudo cultura. Ado, a-ado, cada um no seu quadrado.

Resumindo, eu acho que um grupo de pessoas simulando um determinado tipo de discussão não demonstra que essa discussão é inválida, ou até mesmo non-sense quando realizada por um outro grupo de pessoas. Enfim, o tal podcast continua, e esclarece que se trata de uma demonstração sobre o quanto os tais Pimbas são abomináveis. Uhum, senta lá Cláudia, até agora a única coisa feita foi uma suposta imitação, mas prossiga. Daí começam a comentar como eles são ridículos por terem um código de vestimenta, ou por frequentarem certos lugares, ou por whatever, todos os exemplos eram sinais de que aquelas pessoas tinham certas atitudes/hábitos que os identificavam como um grupo.

Isso vindo de um podcast chamado NerdExpress de um site chamado "Nerd Curitibano". Qual é? É briga de gangue? Eles realmente estão criticando pessoas que se rotulam e que seguem regras sociais e comportamentais para fazerem parte de um grupo? E o rabinho, tá confortável aí bem escondidinho sob sua própria bunda?

Nerd deixou de ser xingamento e virou rótulo de pessoas. Mais ainda, com suas próprias regrinhas, que fofo. Eu me seguro daqui pra não desmaiar de tanta vergonha alheia.

ps. só pra constar, eu não me encaixo na descrição dos tais pimbas, tampouco na descrição de nerds. Posso xingar ces tudo até minha língua cair do alto da minha falta de rótulo.
pps. Notem o terceiro dever da listinha dos nerds, provavelmente é ele que tem feito esses auto-proclamados dizerem tanta asneira sobre os mais variados assuntos internet afora.

Sábado, Junho 13, 2009

OK, se hoje fosse seu último dia de vida, o que você gostaria de me contar, pra valer?

Do Louback.

Se hoje fosse o meu último dia de vida eu não teria nada a dizer. Diferente do que fiz a vida inteira, se hoje fosse meu último dia de vida, eu escolheria o silêncio.